Como lidar com o medo de voar de avião

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Há um tempo, escrevi um post nas redes sociais, compartilhando sobre minha experiência de voar de avião. Muitas pessoas se manifestaram pedindo dicas sobre como lidar com o medo e falaram sobre as dificuldades que elas sentem sobre o tema. Por isso, decidi organizar algumas informações e compartilhar nesse texto!

Para quem não viu o post original, compartilho aqui:

“Lembro-me bem da sensação de voar pela primeira vez de avião, já adulta. Estava com uma grande expectativa e só curtindo o percurso. Que emoção e realização. Pra muitos, voar é algo comum desde cedo, mas para mim, não. Foi algo especial. Medo de voar? Não lembro de ter tido. Eu só lembro de ter curtido cada instante. A partir de então foram vários voos e o medo de voar foi surgindo até ficar intenso. Tive crises de ansiedade e ataques de pânico antes ou durante os voos. Os voos, que foram de 1 a 12h, mais pareciam uma tortura do que um passeio. Ô coisa difícil de lidar…angústia, desespero, sufoco da mente… quando percebi que havia passado de um nível normal de medo e ansiedade pelo voo, comecei a refletir, compreender e buscar uma mudança mental e emocional. Aprendi mais sobre mim, sobre meus pensamentos, sentimentos. Também busquei entender mais sobre gerenciamento emocional e técnicas para lidar com tudo que envolve o tema. Hoje, ao voar mais uma vez, decidi escrever pra compartilhar que encontrei um novo caminho e me sinto bem. Compartilho isso, porque sei que muitas pessoas podem enfrentar questões como essas. E, principalmente pra quem precisa viajar com frequência, pode ser um grande sofrimento. Também tem os casos de pessoas que inclusive deixam de viajar por conta dos medos. Mas há um caminho e transformações possíveis de alcançar. Se essa é sua questão no momento ou se conhece alguém que precisa de ajuda, estou por aqui pra trocar”.

Um ponto importante sobre o texto a seguir: embora estejamos acostumados a buscar respostas instantâneas e tratamentos rápidos para nossas questões, quando falamos da mente humana, é preciso compreender que mudanças verdadeiras precisam ser tecidas com cuidado e manejo artesanal. Não há respostas prontas, nem que se ajustem igualmente a todos.

Mas, existem conhecimentos e técnicas que podem ser bons caminhos a seguir. E essa é a proposta aqui.

Um pouco mais sobre a minha experiência…

Como comentei no post, à medida que percebi que o meu medo foi ficando muito intenso, comecei a buscar estratégias para enfrentar a situação. Vou contar aqui alguns pensamentos – dos mais “malucos” – e as técnicas que usei intuitivamente ou propositalmente para conseguir encarar a situação de melhor forma possível.

1)FIZ EXERCÍCIOS DE ATENÇÃO E RACIONALIZAÇÃO.

-Quantos aviões decolam e pousam todos os dias, e tudo bem? MUITOS. É um meio de transporte extremamente seguro. Aliás, segundo alguns estudos, o mais seguro do mundo. Bom, isso gera uma confiança, não? Embora isso seja verdade, quando ocorrem desastres aéreos, eles chocam bastante emocionalmente e geram muita insegurança nas pessoas. Porque neste caso, há a inevitável questão de pensar que se um avião cai, dificilmente haverá sobreviventes, logo…

Sim, isso é uma realidade. Mas aí entra a questão de onde focamos a nossa atenção e emoções. Eu prefiro fixar minha mente em imagens de tantos aviões que sobem e descem, tranquilamente, como algo cotidiano e que há uma chance muito maior de ficar tudo bem.

-Turbulências fazem parte / ter de arremeter o avião e fazer mudança nos planos de voo também. Entender essas questões, foi uma grande virada de chave para mim. Eu percebi que os momentos em que ficava com mais medo e ansiosa, estavam ligados a um certo “querer controlar” o que seria um voo tranquilo. Mas quando passei a entender o funcionamento, o que seria “um dia normal” na rotina da aviação, ficou mais claro que eu precisava me acalmar. Estava tudo bem.

O dia em que passei mais medo, foi quando o avião estava quase pousando, e eu já estava com aquela sensação – “ufa, quase chegando…praticamente em terra” – e o piloto começa a arremeter (subir novamente). Eu senti a nave fazendo um grande esforço para subir. Pensamentos que vieram: “o que está acontecendo? Será que vai conseguir subir mesmo? E o combustível?” Depois de minutos de tensão, o piloto avisa que não estava em condições de pousar (vento). E ficamos pairando no ar por um tempo. Aquele dia senti MUITO medo. Sabe quando você olha para o lado, vê seu marido e sua filha e diz: “te amo, valeu a caminhada até aqui, obrigada pela parceria nesta Terra”?(rs) Agora parece até um exagero, mas para pessoas com medo e ansiedade, aquilo é tão real – que algo ruim vai acontecer – que gera reações físicas. Depois que passou, um grande alívio. Todos aplaudiram ao pousar. Felizes por estarmos vivos, imagino. Depois eu pensei: “bom, era uma situação nova para mim, mas o piloto e equipe foram treinados para isso. Faz parte do trabalho deles”. O que me cabe nessas situações em que não estou no controle é tranquilizar-me e confiar.

3) ESPIRITUALIDADE: conectar-me com a minha fé, refletir sobre o que de fato acredito a respeito da vida e da morte, pensar na minha existência e no que eu controlo ou não, foi fator fundamental para mim também. Qual é a sua fé e o que você aprende sobre o tema?

4) APROVEITAR AS DISTRAÇÕES: ler um livro, ver um filme, ouvir músicas, conversar, comer algo…no meu caso essas atividades ajudam, mas a distração mais intensa que já tive e tenho é cuidar da minha filha a bordo. Esse olhar para as necessidades do outro muda nosso foco em qualquer situação. Então, a pergunta écomo aproveitar o tempo do voo fazendo algo que te distrai?Quanto mais a atividade tomar sua atenção, mais eficiente será.

5) USAR ESTRATÉGIAS PARA ACALMAR:existem técnicas de relaxamento, que se aprendidas podem ajudar em várias situações. Você pode aprender uma forma de respirar diferente (parece tão simples, mas é tão eficiente) ou fazer exercícios mentais aprendidos. Hoje em dia tem sido muito utilizado o mindfullness. Se não conhece, procure conhecer. No meu caso, o que me acalma é ouvir certas músicas, fazer uma oração e trabalhar a respiração. Ah, e tem algo que eu faço também. Olho ao redor, observo as pessoas – como elas estão? Quando vejo alguém dormindo, ou agindo muito naturalmente, eu uso isso como reforço no sentido de “Patrícia, tá tudo bem, se acalme”.

6) PASSAR POR PSICOTERAPIA:Como paciente e como Psicóloga, posso dizer que em alguns casos, dependendo do nível do medo, um trabalho com um profissional será fundamental para que a pessoa possa cuidar de fato de seu bem-estar e saúde mental.

Conectado a esse último ponto, eu quis escrever um texto compartilhando minha experiência abertamente e o que funcionou para mim, mas pensando em ir além disso, pois cada situação é única, convidei dois colegas Psicólogos para compartilharem suas visões sobre o tema. A ideia foi que eles trouxessem informações relevantes do ponto de vista mais teórico e técnico da Psicoterapia.

Quer aprofundar no tema? Se prepare e vamos adiante…

Agradeço imensamente por toparem, Denise Clésia Santos e Júlio César Silveira! Eles são pessoas e profissionais incríveis que recomendo o trabalho com muita tranquilidade. Atuam como Psicólogos clínicos, com abordagens diferentes, que ficarão mais claras adiante.

Pedi ao Júlio para que falasse um pouco do tratamento com base na Terapia Cognitivo-Comportamental, que tem sido altamente recomendada para esse tipo de questão.

Em suas palavras:

“Na terapia cognitiva-comportamental, que é a integração de técnicas do behaviorismo à teoria cognitiva, o medo é enfrentado basicamente por duas vias – ‘confronto do pensamento’ e ‘exposição à situação temida’.

Pela via do ‘confronto do pensamento’ a terapia visa entender as crenças que fundamentam o medo, no caso, o de voar. Identificar se elas têm sua gênese numa experiência empírica, se fundamentam em casos concretos vividos por diretamente ou por pessoas próximas, ou se sua origem se sustenta num juízo parcial ou totalmente falso do fenômeno. 

O confronto do pensamento tem como objetivo provocar na pessoa a reavaliação de crenças que limitam o seu desenvolvimento, a impedem de enfrentar a situação-problema e superá-la, e reforçam nela sentimentos de menos valia. Reavaliação na intenção de corrigir pensamentos insalubres.”

E sobre a outra técnica, de ‘exposição à situação temida’ (já que não basta corrigir o pensamento e ficar de modo abstrato), Júlio explica:

“Uma pessoa pode estar convencida de que o seu medo de andar de avião é infundado ou baseado uma avaliação distorcida que subestima os riscos, mas permanecer cativa pelo medo. A reorientação se limitar ao plano abstrato, sem efeito concreto. Portanto é preciso é enfrentar o problema também por uma segunda via, a da ‘exposição à situação temida’. Ou seja, a superação efetiva do medo requer o enfrentamento direto do objeto temido. Enfrentamento que normalmente se dá sempre que possível pela exposição gradual a situações crescentes de risco e de perigo, para que a pessoa vá ganhando paulatinamente confiança para superar seus obstáculos internos e externos. Uma experiência direta, concreta e objetiva positiva tem um potencial maior de desconstruir pensamentos e emoções que bloqueiam o fluir e o fruir do indivíduo.”        

Ou seja, a Psicoterapia com base na Terapia Cognitivo-Comportamental, trabalha com percepções, crenças, mudanças cognitivas e emocionais, planejamento e capacitação para enfrentamento das situações. E realmente tem sido bastante efetiva em termos práticos, para pessoas que querem vencer seus medos.

Uma outra abordagem possível, é o tratamento com base na Psicanálise. Embora minha linha de atuação seja mais voltada para o que foi comentado anteriormente, gosto muito de aprender com outras formas de ver e de atuar, entender teorias e técnicas. E assim como isso me enriquece, pensei que pudesse esclarecer muitas dúvidas e trazer informação de valor. Quando a Denise respondeu meu convite com o conteúdo abaixo, ficou claro que foi uma boa ideia (risos).

Quando perguntei para ela sobre como pensar o medo de voar de avião, com base na psicanálise, ela trouxe algumas diferenciações importantes a se fazer. E apresentou exemplos de medos excessivos, caracterizados como Fobias.

Em suas palavras:

“I´mafraid of…”Essa expressão em inglês geralmente é utilizada para fazer referência ao medo ou receio de algo. O interessante da expressão está na preposição “of”, pois traz uma especificidade ao tipo de medo. Podemos nos apropriar desse substrato linguístico para explorarmos um quadro ansioso chamado de fobia.

A fobia configura-se por um medo exagerado, um pavor intenso em torno de um objeto específico que pode ser uma pessoa, um objeto, ou até mesmo uma situação. A Agorafobia (medo de lugares ou situações), aracnofobia (medo de aranhas), claustrofobia (medo de lugares fechados) nos trazem exemplos de medos muito específicos que provocam reações evitativas e paralisantes para aqueles que a portam.”

Sobre o tratamento com base Psicalítica, Denise explicou o seguinte:

“O tratamento da fobia para Psicanálise, mais precisamente Freudiana, se daria nos termos de entender a ligação entre algo de ordem traumática que ficou simbolizado no objeto externo, aversivo, fóbico. Essa retomada é uma tentativa de dar acesso ao que de fato traz angústia e tentar reconstruir a relação entre o sujeito, seu trauma e o objeto que lhe causa ojeriza, mas que funciona apenas como um representante de sua angústia, de algo maior que o objeto. Em se tratando dessa metodologia não se pode estabelecer conexões diretas como “medo de voar logo significa isso ou aquilo”. Conjecturas soltas de uma história ou enredo de um sujeito imerso numa cultura familiar, social, não se aplicam a escuta necessária para desenvolver uma direção de tratamento possível em um processo analítico para casos de fobia. Um objeto que traz medo associado a uma história desenrolada, contada e reconstruída pode em muito amenizar o sofrimento dos pacientes com fobia e oferecer-lhes a oportunidade de entrar em contato com o que de fato lhes trouxe aversão, evitação e pavor.

E para os interessados em aprender mais sobre as descobertas que resultaram nesse método, ela traz um pouco do histórico e construção:

“A Psicanálise surge no fim do século XIX inaugurada por Freud que visava entender a questão do inconsciente por meio do processo livre de fala (associação livre) e da interpretação de meios como os sonhos, os lapsos de linguagem, etc. No início de seus estudos sobre a histeria, Freud investigava exatamente a relação entre um sintoma manifesto no corpo (conversão), e que não era de cunho fisiológico, e sua ligação com questões inconscientes relacionadas à sexualidade. No caso das histéricas, quando esse nexo era estabelecido os sintomas no corpo e na psique eram apaziguados. 

Para Freud o que estava em jogo não era o sintoma em si, mas o que ele vinha a significar de algum conteúdo traumático experenciado pelo sujeito. Como para Psicanálise o olhar está voltado para o que é do inconsciente as manifestações sintomáticas, como no presente artigo a escolha do objeto fóbico e todo pavor que é despertado por meio dele, entram na análise do nexo causal entre a escolha do objeto fóbico e a representação de uma angústia.”

Finalizando…

Em ambas as abordagens, você terá um espaço seguro e qualificado de escuta, reflexões, técnicas embasadas e alguém que está ali para te facilitar nesse processo de descobertas, autoconhecimento e melhoria da saúde e bem-estar.

Cada pessoa se identificará mais com uma ou outra abordagem. O mais importante é perceber o momento de buscar um profissional e se empenhar no processo de transformação.

Coragem, vai valer a pena!

Abaixo, seguem os contatos dos profissionais indicados e um pouco mais de informações sobre eles.

Julio César Silveira: Psicólogo formado e especialista em Psicologia Organizacional e do Trabalho pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Mestre em Ciências da Religião pela PUC-SP. Atua como Psicólogo Clínico, com adolescentes e adultos, Consultor em Recursos Humanos e Professor universitário.

Contatos:
Tel.: (11) 98555-6927
E-mail: jcsilveirasilva@uol.com.brInstagram

Psicóloga Denise Clésia Santos. Psicóloga e Bacharel em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) e Especialista em Psicoterapia Psicanalítica (Saúde Mental) pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Atende adolescentes, jovens e adultos e tem interesse no estudo de casos limítrofes/ borderline.

Contatos:
Tel.: (11) 943243466
E-mail: psicologadenisesantos@gmail.com
Instagram: psicologadenisesantos
Site: www.psicologadenisesantos.com.br


Patrícia SchuindtComo lidar com o medo de voar de avião

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